Quem eram os pintores de retratos antigos dos vimaranenses e quem se deixava pintar...(Crónica histórica – Paulo Freitas do Amaral)


Podemos constatar em diversas Instituições de Solidariedade vimaranenses, principalmente na Misericórdia de Guimarães e na Ordem de S. Francisco existem retratos de personalidades que viveram noutras épocas.
No caso da Misericórdia de Guimarães podemos afirmar com certeza que 90% destes retratos são de bem feitores. Mas perguntam-me vocês, o que são bem feitores? Bem feitores eram consideradas as pessoas que “ajudavam” financeiramente estas Instituições religiosas por via de testamento ou ainda em vida. Em muitos casos a quantia com que ajudavam estas Instituições estava inscrita na própria tela.
Os quadros que são de provedores e que simultaneamente fora bem feitores são escassos…
Por vezes o que acontecia era que os vimaranenses mais abonados, ainda em vida, ofereciam os seus quadros às Instituições como aconteceu por exemplo com uma viúva no ano de 1807 que oferece os seus quadros à Misericórdia de Guimarães:
“…oferece os retratos dela Dona viúva e do seu defunto marido…” sob condição de a Misericórdia mandar fazer caixilhos dourados para os retratos…” (Arq.da Mis. Códice 12, fl. 110V.)
A procura dos vimaranenses em deter um quadro na galeria dos bem feitores, fruto também de alguma vaidade, começou a ser tanto que em 1784 foi necessário a Misericórdia estabelecer um mínimo de duzentos mil reis para mandar pintar os quadros dos interessados.
Anteriormente a esta data só haviam 3 retratos na referida galeria da Santa Casa.
Em 1815 começa a existir a exigência pública para a Santa Casa expor na galeria todos os quadros o que não estava a acontecer e de contratar um pintor que dedicasse mais tempo à função (Arq. Da Mis. Códice 13, n 53)
O provedor da época agiu e logo veio um retratista do Porto que por 4 800 reis pintaria e colocaria caixilho e pano por sua conta (Arq.da Mis. Códice 13, nº53)
Menciono aqui por ordem cronológica os pintores que no Códice nº611 da Misericórdia de Guimarães são referidos como autores dos quase cerca de 200 quadros atualmente existentes:
1789 – Padre Inácio Luís de Barros
1806- António “Pintor”
1807 – António Simões “retratista”
1815 – Alberto Simões
1827 – Bernabé Mendes, do Porto
Meados deste século – José Alberto Nunes
1859-60 – António José Novais, do Porto
1866 – António Augusto da Silva Cardoso (Vimaranense com atelier na rua de Santa Maria –Fez 36 quadros)
1867 – Álvaro Barroso Pereira Salazar (Natural de Guimarães mas trabalhou no Porto, autor de 8 quadros)
1897 – Abel Cardoso, pintor artista e vimaranense. São bastantes as obras de sua autoria sendo o seu primeiro retrato o do Padre Sebastião José leite
Augusto Roquemont pintou também em 1833 o retrato do padre Boaventura Fernandes de Meireles. Este pintor suíço, Roquemont, esteve bastante tempo em Guimarães deixando obra como já mencionei em artigos anteriores como o das pinturas da casa de sezim (edição 3 do Correio de Guimarães)
Existem também importantes registos sobre as despesas que alguns destes pintores mantiveram por tornar-se-ia aqui um pouco extensivo mencionar todos os gastos. (códice 228)
Actualmente a Santa Casa da misericórdia de Guimarães como foi anunciado publicamente ganhou um concurso para a recuperação de vinte quadros das quase duas centenas que detém através do fundo Rainha Santa Leonor gerido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Um trabalho útil de realizar e que ainda não está feito seria o de “cruzar” com todas as Irmandades vimaranenses a listagem dos quadros existentes em cada uma, de forma a podermos saber mais sobre as personalidades vimaranenses, tal como foi feito há recentemente pouco tempo com o “Conde de Margaride” em que houve um real trabalho “em rede” de todas as Instituições.
Fica a sugestão para não acontecer como diz o povo; “cada um fechado na sua capelinha”.
Paulo Freitas do Amaral – Licenciado e Pós-graduado em História

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