1862 - O ano da guerra entre médicos e cirurgiões em Guimarães (Crónica - Paulo Freitas do Amaral)


Corria o ano de 1862 e só existiam dois médicos e dois cirurgiões em Guimarães. As funções na altura eram distintas e os médicos não operavam mas socialmente tinham um estatuto superior aos cirurgiões.
O confronto entre as duas classes médicas era essencialmente salarial, o que originou uma argumentação escrita entre ambas bastante agressiva por sinal às entidades que as tutelavam.
A qualidade da Escola Médico-Cirúrgica do Porto tinha vindo a aumentar na década de cinquenta e começou a ganhar muito boa reputação na década seguinte, o que originou que os cirurgiões lá formados começassem a reivindicar direitos iguais aos dos médicos e em alguns casos até mais...
Uns anos antes do confronto de 1862 entre as duas classes em Guimarães encontramos cirurgiões como António Joaquim Pinheiro com um ordenado de 100 000 réis por ano enquanto o médico Manuel José Faria, embora já reformado estaria a receber 50 000 réis por ano.
No entanto chegamos ao ano de 1862 e segundo os registos existentes, o ordenado dos médicos vimaranenses continua à margem das expectativas. Este facto origina a que José Areias e Manuel Oliveira escrevam à direcção do Hospital de Guimarães uma extensa carta reivindicando os argumentos pelos quais os médicos deveriam receber mais salário:
1 - A existência de sobrecarga de trabalho e o maior perigo de contágio das epidemias
2 -O trabalho clínico de terem de estar presentes nos trabalhos operatórios
3 - A fraca qualidade profissional dos cirurgiões mencionando que eram somente como obreiros manuais
4 - O maior e melhor nível de conhecimentos por serem formados na Universidade de Coimbra enquanto a maior parte dos cirurgiões tinham só uma carta de aprovação do Cirurgião-Mor
Esta rivalidade não se tratava-se somente de uma rivalidade de classes mas também de Universidades, onde Coimbra se pretendia afirmar como a universidade mais qualificada.
Claro está que a carta dos médicos originou uma resposta "à letra" dos cirurgiões também para a direcção do Hospital pedindo um aumento de vencimento argumentado as seguintes razões:
1 -As enfermarias de cirurgia estavam sempre cheias ao contrário das enfermarias de medicina
2 -O cursos de cirurgiões não eram aprovados por decreto como diziam os médicos mas reconhecidos pela Universidade
3 - O trabalho de cirurgião era mais complexo e arriscado do que o de médico. A titulo de exemplo escrevem "É mais complicado pedir para deitar fora a língua para ver a garganta a um doente ou operar uma ulcera no estômago?"
4 -Os cirurgiões faziam trabalho que deveria ser dos médicos; na enfermaria de partos, na realização de sangrias e nas autoplastias
5 - Os cirurgiões tinham de acompanhar os médicos à cadeia para ver os presos e às conferências de medicina
É curioso verificar que a tutela deixou a situação praticamente na mesma e que este conflito com o passar do tempo iria-se atenuar com a fusão das duas profissões numa só, onde a especialização daria lugar à função de cirurgião.
Um curiosidade da História de Guimarães bastante interessante e praticamente desconhecida de todos!
Paulo Freitas do Amaral - Licenciado e pós-graduado em História

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