Quando D. João V impôs ordem em Guimarães - O conflito entre Irmandades - (Crónica - Paulo Freitas do Amaral)


Em 1734, ano em que reinava em Portugal sua Majestade o rei D. João V, dá-se o auge de um conflito em Guimarães que se vinha agudizando entre os frades menores da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco em Guimarães (S. Paio) e a Mesa Administrativa da Santa casa da Misericórdia de Guimarães.
Estas duas irmandades religiosas ainda são nos dias de hoje em Guimarães, as duas irmandades que congregam em si, o maior peso histórico, cultural e social vimanarense mas ao longo dos tempos a sua convivência nem sempre foi fácil, embora nos dias de hoje haja relações de grande amizade, cordialidade e de colaboração mútua.
A 28 de Fevereiro de 1734, os mesários da Santa Casa responsáveis na altura pelos serviços essenciais à cidade de Guimarães como as prisões, o hospital, a apoio aos mais carenciados etc...tomam uma série de decisões radicais que têm por base cortar relações com a Ordem Terceira de S. Francisco.
O motivo principal deste conflito foi o que na altura chamavam de "demandas" religiosas em que a Mesa Administrativa da Santa Casa, no seu juízo, achava que os chamados "Terceiros" deveriam prestar contas à Misericórdia e que as também chamadas "desatenções" para com a Misericórdia de Guimarães eram na sua perspectiva "mais que muitas".
Neste sentido o Provedor da época, o Fidalgo Francisco Alarcão decidiu retirar competências religiosas na sua Instituição aos frades terceiros pelo lavrou em acta a seguinte proposta com 4 pontos, aprovada por unanimidade:
1- Impossibilitar os irmãos da Misericórdia de serem simultâneamente irmãos da Ordem terceira, dando um prazo de 3 dias para se desvincularem da ordem franciscana
2-Proibir os Irmãos da Misericórdia de acompanhar as procissões realizadas pelo Ordem Terceira de S. Francisco em Guimarães
3- Não atribuir missas nem sermões a frades franciscanos nas igrejas e nas missas promovidas pela Misericórdia de Guimarães.
4- Não atribuir vestes para celebração de missa a frades franciscanos com excepção dos frades franciscanos conventuais
Claro que estas decisões tiveram uma repercussão enorme e provocaram uma escalada na tensão entre as duas Irmandades e passados 9 meses, o assunto já era do conhecimento do Rei D. João V pelo facto da Ordem franciscana ter enviado três frades "terceiros" fazer queixa a Sua Majestade da hostilidade religiosa que estariam a ser alvo por parte da Misericórdia de Guimarães.
Sua Majestade, El-rei D. João V mandou informar ambas Instituições que mandaria um Ministro investigar o assunto.
A 7 de Novembro de 1734 a mesa administrativa da Santa Casa reúne com carácter de urgência, sabendo das queixas "caluniosas" feitas a Sua Majestade pela Ordem terceira e delibera também que vá uma comitiva representativa da Misericórdia falar com El Rei D. João V .
Neste sentido aprova um orçamento para irem dois mesários da Misericórdia apresentarem as razões de queixa ao Rei; Dionísio Freitas do Amaral (escrivão)e Manuel Cabral, mesário. Este irmãos cumprem a missão aguardando por audiência um certo tempo em Lisboa.
Após a explicação à corte por parte da Misericórdia do seu ponto de vista, esta contenda entre ambas as Irmandades prolonga-se ainda nos dois anos seguintes mas com a eleição do novo provedor Fernando Peixoto da Silva no ano de 1737 esta tensão tende a esvaziar-se passando a haver novamente boas relações entre ambas Instituições após a deliberação do Rei para o seu Ministro vir "por ordem" a Guimarães.
Paulo Freitas do Amaral
Historiador pós-graduado


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