Guimarães, bastião miguelista... palco das maiores festas de Portugal ( Crónica - Guerra civil em Guimarães - parte II - Paulo Freitas do Amaral)
O episódio que descrevi no meu artigo anterior sobre a "batalha" que se travou em 27 de Junho de 1828 entre liberais e miguelistas em Guimarães com diversas mortes no Toural, etc. deu azo a que os Miguelistas, com a coroação de D. Miguel poucos dias antes deste confronto, tivessem "via verde" em Guimarães para afirmarem a sua implantação nos cinco anos consecutivos através de comemorações e festas das estruturas dominadas pelo Estado, pela Igreja e pela nobreza vimaranense.
Nesta conjuntura Guimarães foi palco das maiores festas e comemorações miguelistas do país.
A sociedade vimaranense encontrava-se dividida, de um lado estavam os Miguelistas, defendidos pelos fidalgos e nobres da Vila.Do outro lado, os liberais, apoiantes de D. Pedro IV, grupo fortemente representado no seio das classes populares.
O centro da cidade era maioritariamente miguelista, fruto do domínio destes sobre as Irmandades, Ordens, Câmara, etc. sediadas no centro... sendo que o peso dos liberais encontrava-se maioritariamente fora do centro de Guimarães entre as classes menos abastadas.
Mas bastaram unicamente dois meses passarem sobre o dia negro da batalha no Toural de 27 de Junho de 1828 para a facção miguelista programar logo em Agosto, mais precisamente entre os dias 10 e 17 de Agosto uma campanha de apoio ao Rei D. Miguel que promovia várias festas no centro histórico, a começar pelas faustosas iluminações da Igreja do Senhor dos Passos com um retrato magnânimo de D. Miguel.
O retrato representava D. Miguel com o mapa de Portugal numa mão, e com a outra mão a lançar raios sobre os inimigos do trono. No dia 16 de Agosto, após várias noites de festa, com a chegada do General de província a Guimarães, o regimento vimaranense nº 22 realizou um grande concerto perante uma multidão de vimaranenses que acorreu para ver o fogo e ouvir os poemas dedicados ao Rei D. Miguel.
As festas durante esse ano e durante o ano consequente continuaram em vários pontos de Guimarães, na Colegiada, na Sociedade patriótica no Toural com diversas datas marcadas; 22 de Agosto, 28 de Setembro, 26 de Outubro (anos de D. Miguel) entre muitas outras datas...
Estas diversas efemérides chamaram a Guimarães os melhores artistas da época; músicos, orquestras, actores etc.. pois a elite Miguelista vimaranense possuía na altura poder económico para tal.
Mas também houve inúmeros bailes promovidos pelas famílias nobres em Guimarães em que algumas festas ascendiam a mais de um centena de convidados. Havia presenças assíduas nestas festas de algumas personalidades como era o caso do Corregedor António Joaquim de Carvalho,o Visconde de Azenha, o Conde de Pombeiro,o Governador Militar da Vila, os Ministros da vila entre outros...
A propósito destas festas o jornal "Comércio do Porto" de 24 de outubro de 1829 relata-nos o ambiente sentido num baile dado por Fortunato Cardoso de Meneses Barreto (o mesmo que teve a Casa do Proposto incendiada por dar apoio aos Miguelistas, referido no meu artigo anterior):
«(..)Na noite de 22 deu Fortunato Cardoso de Meneses (...) serviu um esplêndido chá, e baile, para o que havia convidado o Príncipe de Hasse, todos as Senhores, e Nobres da Vila, e dignando-se Sua alteza assistir, foi conduzido, assim como toda a nobreza, à sala que lhe tinham destinado. Servido o chá, principiou o baile, que durou até ao crepúsculo do dia 23, havendo nos intervalos do baile repetições do hino português e onde foram dados mil vivas a El-Rei D. Miguel I (..)»
São muitos os relatos que nos chegaram aos dias de hoje dos cortejos públicos pomposos dedicados a D. Miguel durante os anos do seu reinado em Guimarães. A implementação desta "campanha política" junto da população vimaranense foi de tal ordem que o impacto do cerco do Porto às tropas de D. Pedro IV e a reconquista do trono de Portugal por parte dos liberais não se travou pelas ruas de Guimarães, dando-se sim de forma indirecta.
Não deixa de ser interessante estudar esta época em Guimarães, uma vez que os historiadores ligam Guimarães mais à fundação de Portugal mas o estudo de outras épocas sobre a sociedade vimaranense é de igual forma muito interessante de analisar e estudar.
Ainda para mais se tivermos a consciência que esse estudo está por realizar.
Paulo Freitas do Amaral - Historiador Licenciado e Pós-Graduado

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