O que se tomava em Guimarães para curar as doenças

Nos dias de Hoje percebemos pelos registos que existem em Guimarães que nem sempre o Hospital deteve o monopólio das “boticas” que vendiam as ervas medicinais à população vimaranense. Estas boticas vendiam ervas mas também outros produtos que as pessoas acreditavam ser milagrosas…
As referências que nos chegam do séc. XVI ao séc. XIX é que existiam diversos boticários sediados em Guimarães e que a concorrência que faziam com o Hospital era grande.
Estes boticários vendiam ervas medicinais, xaropes, unguentos, sementes, balsamos, sanguessugas, vinagre, azougue, pau-santo, entre muitos outros produtos…
Estas ervas medicinais “compradas à porta” vinham, em muitos casos das aldeias e das freguesias ao redor de Guimarães;
1 - De Nespereira vinham ervas que curavam os “defluxos” (avenca, alcaçuz e agasalhos), para curar a inflamação das amígdalas e apoplexias vinham os xaropes de limão e cordial de chicória.
2- De Pencelo vinham ervas que curavam a Sarna, a erva molarinha),e para curar os inchaços vinham os morangueiros bravos, para curar a iterícia vinha a erva sapeira e para a infeção da Tinha vinham míscaros e tortulhos de sapo.
3- De Tagilde vinha a “marcela” para chás medicinais, para as febres catarrais vinha a hera terrestre, para o reumatismo vinha o “Pó de Vogalho”. Com a finalidade de realizar os cozimentos medicinais vinham as folhas de sabugueiro e as violetas de cheiro e finalmente para as febres biliosas vinham a erva cidreira entre outras ervas vindas de fora de Portugal.
4- De Guardizela vinham as sanguessugas e os antisséticos. Falar de antisséticos em meados do séc. XIX era algo desconhecido para o povo que optava na altura pelos defumadoiros.
5- De S. Cláudio de Barco vinham produtos para diferentes fins medicinais; a marcela, o aipo, a salsa, o hortelão pimenta, o alecrim, a alfagema, a arruda, a bardana, a escrofulária, a sinaglosa, a fragaria gilbardeira e a hortina.
6- De S. João de Brito vinham 16 espécies específicas de plantas.
7- De Atães vinham “Rosas de Sabugueiro” para limpar inflamações, alecrim, alfageme e arjabão para defumadoiros. Vinham também cidreira, avenca, marcela para utilizar em chás.
8 – De Gonça vinham 23 espécies de plantas e tremoços.
É curioso verificar as afirmações de um físico judeu nascido em Guimarães de nome Mestre António de Miranda que refere acerca as virtudes das ervas medicinais existentes no berço da nação; “ A Cornerina tem a virtude de destancar o sangue da ferida”, “O Jacinto é contra a peste e toda a peçonha…”, “ A avenca tem muitas virtudes, etc…”, “O Jaspe tem a virtude contra a Idropsia se for moído”, “O Aipo é bom para as mulheres peranhas trazerem consigo que as faz seguras de não morrer…” etc…etc..
Mas os físicos, médicos, cirurgiões e responsáveis do hospital tinham muito cuidado na venda destes produtos pois há referências a alguns boticários que vendiam produtos a preços astronómicos enganando assim o hospital e doentes que lhes compravam produtos diretamente…
As boticas além de serem locais de venda de ervas e outros produtos eram também conhecidas por serem locais onde se promoviam os jogos de azar “fora de horas” pelo que encontramos registos de proibições destes jogos em documentos datados do ano 1692
Muito mais tarde, em 1846, o ministério da saúde pública faz uma lista de 117 plantas que os boticários podem vender acabando em alguns casos com alguma charlatanice que vigorava em certas vendas…
O Hospital de Guimarães também se encontrava isento de qualquer fiscalização superior a nível da administração dos medicamentos pois todas as tentativas de o fiscalizar, tanto a nível do Provedor da Comarca como da parte dos delegados da “junta de Protomedicato” do ministério da saúde foram inconsequentes…ou seja…não existiram…
No entanto, os boticários com contrato com o Hospital de Guimarães tinham direito a uma residência gratuita e direito e a uma pequena horta (pensa-se nos dias de hoje que seria uma “horta botânica”).
Podemos desta forma concluir que uma das razões das irmandades deterem muitas propriedades de cultivo não eram só fruto das doações que as pessoas lhes atribuíam para alcançar o Paraíso mas são também fruto da necessidade destas Irmandades produzirem medicamentos naturais que pudessem ser administrados aos seus pacientes.
Paulo Freitas do Amaral – Licenciado e Pós-Graduado em História

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Bandeira de D. Afonso Henriques é inspirada em S. Miguel?

Neste dia de Portugal conheça a descoberta científica que comprova que os portugueses têm no seu ADN duas sequências genéticas que não existem em mais nenhum outro povo do mundo: a A25 B18 DR15 e a A26 B38 DR13

Cerco ao Castelo de Guimarães - Quando D, João I, veio por cerco a Guimarães, em 1385, junto da porta de S. Bárbara da muralha, deu-se o singular e heróico episódio em que ganharam os portugueses - Ilustração de Guilherme Camarinha