O perigo da existência de uma pandemia em Guimarães com a construção do Toural - 1789 (Crónica – Paulo Freitas do Amaral)
Corria o ano de 1789, esse ano tão negro para a realeza francesa, quando surgiu a iniciativa de abater a muralha que percorria o Toural com o objectivo de erguer altos edifícios, a chamada fachada pombalina das casas do Toural à semelhança de Lisboa que se reconstruia do grande terramoto de 1755.
A muralha que existia no Toural era das mais altas na cidade mas os prédios que se avizinhavam edificar ainda seriam mais altos do que a muralha existente pelo que os órgãos da direcção do Hospital de Guimarães que ficava nas instalações “traseiras” ao Toural, onde hoje é a Misericórdia de Guimarães no Largo João Franco, ficaram em pânico pelas enfermarias existentes no Hospital ficarem sem luz, sem sol e sem ar, o que poderia gerar a existência de uma pandemia extensível a toda a cidade…
A construção dos edifícios do Toural foi uma decisão de uma Direção do Ministério do Reino em Lisboa pelo que os responsáveis do Hospital de Guimarães escrevem o seguinte em ata de reunião:
«…todos concordaram que o dito caso era digno de uma infalível providência, e que o prejuízo era certo, não só aos doentes do Hospital, mas que do mesmo se podia originar uma epidemia transcendente a toda a vila…»
Neste sentido os responsáveis do hospital mandaram uma representação a Lisboa falar com o Rei com a seguinte missiva que falava do perigo da existência de uma epidemia;
«Porém, como as ditas casas que se pretendem fazer sobem, segundo o risco,…muito acima das antigas casas e muro, é sem dúvida…prejudicial às enfermarias deste Hospital, não só por ficarem escuras, mas, mais, por lhe tolher o ar ambiente e novo que entrava nas mesmas enfermarias, que, ficando faltas do dito ar, pela altura a que querem conduzir as ditas obras, é de recear se siga uma epidemia nas ditas enfermarias, do que resulta dano universal a toda a vila…»
Os mesários da santa casa, o corpo médico, os “principais da Vila” e o próprio povo, todos entendiam o que representava para a “higiene” do hospital, a construção destes edifícios mas o Rei não atendeu aos apelos da sociedade vimaranense e passados seis anos a direcção do Hospital volta a referir este caso de “saúde pública” pondo a sua resolução nas mãos de dois cirurgiões; o Dr. João Cunha Gaivoto e o Dr. Bento Gomes que também acabaram por não encontrar remédio para o problema.
Entretanto entra o Séc. XIX e com ele em 1815, aparece a doação de um edifício contínuo ao Hospital da Misericórdia, onde é hoje a Sociedade Musical Vimaranense (conservatório) no Largo Condessa do Juncal (feira do pão). Este edifício veio aliviar a condição dos doentes e permitir que tivessem outro tipo de “arejamento”.
O seu doador foi José Lopes da Cunha Velho e o facto de ser contínuo ao Hospital da Misericórdia tornava tudo bastante mais operacional e saudável para os “enfermos”.
Mais tarde, em 1844, devido às convulsões políticas, vaga o convento dos capuchinhos (instalações do Antigo Hospital de Guimarães) e vem a dar-se a aquisição por parte da Misericórdia deste Convento.
É nesta altura que toma lugar uma grande mudança e o Hospital de Guimarães transfere-se do Largo João franco para o convento dos capuchinhos (próximo do castelo), tendo ficado lá instalado o Hospital de Guimarães até 1991.
É curioso constatar que nos séculos XVII e XIX, tal como nos dias de hoje, existia consciência dos males que podiam advir de um agravamento de uma epidemia na sociedade. É bom que este legado de memória colectiva esteja presente no nosso quotidiano como esteve nos nossos antepassados noutra época.
Paulo Freitas do Amaral – Historiador Licenciado e Pós-graduado

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